Aprenda a aprender – a pensar sobre o que você ouve

Miguel Oliveira Banao (Professor Universitário), blogueiro e autor

Andava pela falésia junto à praia da Ericeira. Observei os pássaros vagando ao vento, as pessoas surfando nas ondas e outros, e os caminhantes como eu, que “patinam” pelas trilhas. Em algum momento, depois de subir e enfrentar a decisão de ir para casa, parei por alguns minutos. Achei que estava olhando o horizonte por aquela linha interminável que distinguia o mar do céu azul, mas aos poucos comecei a perceber que estava fazendo algo mais do que apenas observar. Ouço.

Foto de Miguel Panau (2022)

Ventos frescos e ondas do mar do oceano têm feito o mesmo som desde o início da Terra. Então, quando os escuto, é como se estivesse viajando no tempo e ouvindo o ambiente da terra primitiva antes da existência de plantas e animais. “Todo o universo material é a linguagem do amor de Deus e Seu amor sem limites por nós. Sujeira, água e montanhas: tudo é carícia de Deus.” – Diz o Papa Francisco na Laudato Si’ (n. 84). Então, se o universo é a linguagem do amor através da qual Deus se dirige a nós, o que ele tem nos dito desde o início do nosso planeta?

No santuário de Fonte Colombo, São Francisco escreveu sua primeira regra. Entrou na capela de S. Miguel e ali estava pendurada na parede. Senti meu chamado para sentar e fazer uma pausa e um momento de silêncio, e me recompor como sugerimos naquela peregrinação. Mas não parei por aí. Resolvi dar um passeio pela floresta porque queria ter a mesma experiência que San Francisco teve ao mergulhar na natureza. Na mata, o canto dos pássaros e das cigarras, o zumbido das abelhas, e outros sons cuja origem desconheço, sobrepostos ao vento que fazia dançar as árvores. Primordial Wind Song teve sucesso na história do planeta antes Canto das Criaturas. Naquele momento compreendi por que os escritos de São Francisco eram tão profundos – vinha da experiência Pensando em ouvir. não será capaz Meditar ouvindo Dos sons primordiais, e dos mais recentes, ser um meio de marcar o tempo da criação? De onde vem a capacidade de ouvir?

Sons primordiais são impulsionados pelo sol, gravidade e calor no planeta Terra. Quando há diferenças de temperatura, são geradas diferenças de concentração no ar e no ar, em busca de equilíbrio, ele se move e se transforma em vento. A gravidade e o vento, ao interagirem com a superfície do mar, geram ondas que encontram resistência junto à costa no solo provocando uma diferença de velocidade entre a base e o topo provocando a quebra da onda e o som tão característico que ouvi nas praias da Ericeira . Existem razões físicas para ouvir sons de natureza geológica. No entanto, ao contrário dos ventos e das ondas do mar, por mais fósseis que encontremos, nenhum deles nos dá pistas sobre os sons produzidos pelos primeiros organismos multicelulares. É como se por 3 bilhões de anos, a Terra estivesse fervendo cada vez mais em uma vida silenciosa. O que aconteceu na vida para dar-lhe sensibilidade para ouvir sons?

David George Haskell em um artigo para renovar (julho/agosto de 2022) afirma que – “Durante aqueles longos e silenciosos anos, a evolução construiu a estrutura que mais tarde transformaria os sons da terra. Essa inovação – um minúsculo cabelo ondulado na membrana celular – ajudou as células a nadar e encontrar comida. Este cabelo, conhecido como cílio, escorre para o fluido ao redor da célula. (…) O movimento da água circundante é transmitido ao grupo de proteínas do núcleo ciliar e de volta à célula, tornando-se a base para a consciência de que a vida é cheia de ondas sonoras. Em outras palavras, a razão pela qual podemos ouvir está no cabelo simples e ondulado. No entanto, a vida não deveria ser transformada fisicamente para ouvir, em nós, seres conscientes de nossas experiências, e produzir um contato diferente com a terra?

em seu livroSonhos do Ártico‘, o escritor Barry Lopez compartilha a seguinte experiência – ‘Estou ouvindo’, disse um homem de Anaktuvuk Pass, em resposta a uma pergunta sobre o que ele havia feito ao visitar um novo lugar, ‘Estou ouvindo.’ E tudo isso. Ele queria que eu ouvisse o que a terra tinha a dizer. Eu ando nele e aguço meus sentidos em apreciação por um longo tempo antes que eu possa dizer qualquer palavra. Ele acreditava que ao entrar dessa maneira respeitosa, a terra se abriria para ele. Que intimidade com tanta simplicidade. A vida exterior, através da experiência do sentido da audição, ganha a oportunidade de descobrir o sentido da audição na vida interior. Mas com a evolução em que os humanos se tornaram culturais, os sons mudaram novamente.

Levanto cedo e vou até a sala onde está meu caderno para escrever páginas pessoais. Abro a cortina de uma das janelas que mantenho fechada, e abro a outra janela e mantenho a cortina fechada. Então, refresco o ar da sala com o frescor da manhã e me preparo para ouvir. Mas não consigo ouvir o vento ou o canto dos pássaros. Composto pelo som dos pneus na estrada e o som dos motores. Foi nesse momento que percebi como mudamos os sons do planeta com nossos estilos de vida. E quando perco o contato com os sons naturais, sinto que uma parte de mim está incompleta.

Neste tempo de criação, ao qual dedicamos o mês de setembro, acredito que saber aprender a pensar sobre o que ouvimos pode aumentar nossa sensibilidade para a necessidade de mudar nossos estilos de vida. Voltar a passear no bosque, parque ou praia, é o mesmo que encontrar a voz de Deus que, através dos sons mais primitivos misturados com os mais novos, nunca deixa de nos dizer – “Eu te amo muito …” – E se cada um de nós, tendo escutado, sente que Deus é amado, então será natural desejar o amor para reencontrar a calma de quem está disposto a escutar. Tudo o que ouvimos vem daquele pequeno cabelo ciliar. Portanto, cada ato de escuta da natureza ou do outro, pode ser aquele pequeno ato de nos voltar a nós, e ao outro, para dentro. Pensar no que você ouve lhe dá a chance de descobrir aquela voz falando através do silêncio.


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